Começarei a postar aqui no Blog algumas histórias que eu for escrevendo. Aproveito também para já colocar os dois primeiros capítulos desta história longa que estou desenvolvendo. Divirtam-se!
A Viagem de Horn(ildo)
I – O Brado Hippie da Esperança
“O absurdo não existe, apenas existe aquilo que você não consegue compreender.” Ou isso era o que dizia o pai do jovem coiote que insistia em talhar aleatoriamente um pedaço de madeira sob um sol de quarenta e cinco graus. Mas claro, não aquele maravilhoso sol de quarenta e cinco graus estampado no maravilhoso céu azulado de uma maravilhosa praia do maravilhoso Caribe. Mas sim um sol de quarenta e cinco graus do infernal deserto de Nevada, tão amado estado americano.
O pedaço de madeira e a faca já bastante gasta escorregaram de sua mão enquanto nosso protagonista dedicava um cansado olhar às longínquas montanhas ao leste. Admirou, enojado, uma vez mais aquela vegetação rala que cobria pobremente o solo arenoso e imaginou o quão incrível parecia a idéia de que no meio daquele inferno houvesse um paraíso. “Welcome to Fabulous Las Vegas!”, parecia poder ler flutuando no ar ondeante, quase como uma miragem.
“O que demônios estou fazendo aqui?”, pensou ele, enquanto girava lentamente seu pescoço para um lado. Examinou desanimadamente um enorme acampamento, composto por barraquinhas de pano multicoloridas, das quais não deixavam de entrar e sair seus “companheiros”. Ao ar podia-se ouvir o som de diversos violões tocando ao mesmo tempo, acompanhados de um coro suave que cantava alguma canção dos Beatles. Ele sabia qual era, mas, demônios, não queria se lembrar do nome.
Estava mais do que cansado daquela psicodélica vida de alucinações, musica e o sonho de uma sociedade livre. “Por Deus, como eu fui parar no meio de todos estes hippies?!” Tornou a pensar o coiote, seu lábio inferior estremecendo-se ligeiramente. “Desde que meu pai morreu…”. Agora ele, um pouco zonzo pelo ligeiro odor a maconha que saia de uma barraca perto dele, assistia como uns quantos grãos de areia se arrastavam pelo solo. Praticamente podia visualizar o funeral de seu pai, sua mãe extremamente destruída pela morte de seu amado, as novas amizades que ela tinha ido fazendo em sua cidadezinha ao norte da Califórnia. Como de repente o sorriso voltara ao rosto de sua mãe (mesmo que seguido de uma fala mansa, despreocupada). Ate que, finalmente, ela puxou a ele, sua irmãzinha e seu irmãozinho para uma grande viagem pelo país com seus amigos “paz e amor” para, de alguma forma, reivindicar a liberdade que o mundo merecia.
Sentia saudades de um bom banho. Ah, minha nossa, como sentia saudades de sentir-se limpo! E, mais que nada, como sentia saudades de que as pessoas à sua volta estivessem limpas. O banho parecia ser mais que um tabu, quase que um sacrilégio entre eles, suas tentativas frustradas de alugar um quarto para si próprio em um motel à beira da estrada que o diga! O obrigaram com seus olhares desaprovadores a compartir o interior de uma perua multicolorida com todos os outros. Onde está essa liberdade que eles tanto reivindicam?
Também sente muitas saudades de sua namorada, seus amigos, sua vizinhança… Que crueldade tirar um garoto de 16 de seu habitat para enfurná-lo por mais de um ano numa atmosfera daquelas por uma causa que ele até mesmo desconhecia! Não fazia idéia do porque de terem deixado a caravana de peruas à beira da estrada do deserto para fazer uma espécie de peregrinação pelo deserto de Nevada. Mas é claro que ele os acompanhou.
Ele muitas vezes tentou abandonar, pular fora. Mas sempre lhe faltaram os colhões para encarar sua mãe, tão alegre, ou até mesmo para deixar-lhe uma pequena nota. Preocupava-se muito por ela e queria muito estar lá para protegê-la. Ou essa era a desculpa que dava a si mesmo para não aceitar que não fazia a menor idéia de como ganharia a vida.
Bem, pelo menos ele era o único que não conseguira adaptar-se a essa nova vida. Sua irmãzinha, agora com seus quinze anos, tinha arrumado um namorado, um jovem e mal cheiroso gato pardo, e se encantara com a filosofia hippie. Já seu irmãozinho, de doze anos, deleitava-se com o poder criativo da maconha para escrever suas histórias. Ele diz querer se tornar escritor quando crescer. Isso se chegasse aos dezoito.
Mas o que mais lhe irritava, o que mais despertava seu instinto psicótico, as ganas que tinha de queimar todas aquelas barraquinhas com todos dentro, era o fato de não respeitarem sua única regra. Por seus colegas em sua antiga cidade sempre era chamado de Horn. Horn, um nome imponente, muito bem visto por seus amigos e inimigos e uma engenhosa adaptação de seu nome real. E a regra era: nunca chamá-lo por seu nome completo.
-Hornildoooo! – Pôde-se ouvir uma voz feminina irritantemente estridente. O coiote Horn fez uma careta e levantou a vista, encarando uma loba prateada mais ou menos de sua idade, com cabelos loiros, que poderiam ser bastante atrativos com um par de banhos com bastante xampu, caindo sobre seus ombros. Ela sorria abertamente com sua faixa psicodélica na testa e os três amuletos que levava como colares no pescoço repousando sobre seus seios que não aparentavam muita abundância sobre as roupas folgadas. Esta era Ió, e tinha acabado de chamá-lo por seu nome.
Horn respirou bem fundo antes de responder.
-O que você quer agora, Ió? – Foi grosso, impaciente, mas o alegre sorriso de Ió se manteve imutável. – Estou ocupado. – Na verdade estava, ocupado com afundar no lodo da depressão, fazer dos pântanos da repressão seu eterno cemitério emocional, realizar…
- Ah, deixa de ser bundão! – Disse com sua voz estridente e bastante infantil, embora poderosa o suficiente para fazê-lo prestar atenção. – Quero que você cante pra mim. – Ela já estava à sua frente, agachada, seu sorriso brilhando a frente de seu focinho. Bem em frente.
- Pode esquecer. Você me pegou desprevenido aquele dia e me obrigou a cantar aquele lixo. – Disse ele, tentando aparentar nenhum interesse, mas se notava a quilômetros como havia ruborizado.
- Eu te peguei doidão, isso sim! – Riu ela, empurrando-o sem muita força, a suficiente para quase fazê-lo cair. – E é quando estamos assim que nosso coração fala mais alto. Eu sei que você gosta de tudo isto, seu bobo. Sen4ao não teria composto aquela musica. Que, por certo, é linda! E não vou morrer sem ouvi-la de novo, entendeu?
- Ah, mas EU vou. – Horn se levantou e, encaixando as patas em seus bolsos folgados, começou a caminhar entre as tendas, com Ió ao seu lado como uma sombra. – Queimei aquela letra ontem, se quer saber. Puf! Virou cinzas, como se nunca tivesse existido. Então me deixa em paz de uma vez! – Já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha dito aquilo no ultimo ano. Talvez mais que em toda sua vida anterior. Sua outra vida.
- He, he, heee. – Aquela risadinha fez o estômago de Horn formigar. Tão típica dela, tão contagiante. Mas não se daria por vencido. Nunca se daria! – Até parece que você é assim. Você ainda deve guardá-la embaixo do travesseiro, bem guardadinha. Teu espírito hippie não te deixaria fazer outra coisa. – Enfatizou a palavra “espírito” colocando-se à sua frente e tocando o peito do Coyote com o indicador. Ele tentou acreditar que apontava para o direito por acidente.
- Argh, Cristo! Por que eu fui parar aqui? – Deixou escapar entre um suspiro, levantando seu focinho para o imenso céu sobre sua cabecinha confusa. Ok, talvez em algum momento tinha que se dar por vencido.
De repente, todas as guitarras foram silenciando, uma voz impondo-se sobre elas, chamando a atenção de todos. Reconheceu de imediato a voz do que todos chamavam de Tio Mike. Tio Mike era um tucano afeminado que às vezes achava que Horn chamava de Messias do Apocalipse. Suas longas cabeleiras à la Jesus Cristo e sua eloqüência ao guiar seu povo (seu povo hippie) à sua misteriosa missão eram o principal motivo.
Quando todos se aproximaram dele, calados, ele começou seu discurso:
- Meses! Meses de viagens, de uma dura peregrinação até nosso objetivo. E nós finalmente estamos a apenas um passo de nossa missão, a missão de libertar ao mundo das correntes consumistas, das repressões do governo, e das próprias pessoas e suas mentes lavadas pelos malditos programas de rádio! Com nosso próximo passo, estaremos mais perto de tornar realidade o nosso sonho de um mundo ideal! E é neste momento, rapazes, que deveremos ter mais determinação e mais fé em nossos ideais. Para fazer desta viagem produtiva, posso contar com vocês? – Houve unanimidade de “hurras” e “pode apostar”. Menos da boca torcida de Horn. – Então vou explicar-lhes o que viemos fazer neste fim de mundo!
“Ah, então tem mesmo um motivo”, pensou Horn, revirando os olhos. “Só espero que esse plano não envolva queimar-nos vivos ou nudez coletiva.”
- A um par de quilômetros ao nordeste há uma base secreta do governo, de suma importância para alguns assuntos internos que desconhecemos. Mas fontes seguras me afirmaram que é coisa grande! Nosso trabalho será sabotar esta base e causar o caos no governo desde dentro! Não seremos os únicos, claro, em vários outros pontos do país haverá outras rebeliões de diversos tipos! Será um ataque massivo com um único objetivo: fazer o mundo acordar para a realidade e animá-los a lutar por seus direitos! – O cérebro de Horn demorou alguns segundos para processar tudo aquilo. – Muitos talvez morramos, ou sejamos presos e torturados até a loucura! Outros talvez serão usados em seus macabros experimentos e nunca mais poderão ver a luz do dia. Mas os poucos que sobrevivam para completar nossa missão e contar para o mundo que é possível lutar, serão heróis! E é por eles que todos devemos estar prontos para sacrificar-nos! Vocês estão comigo??
O focinho de Horn estava extremamente torcido sua boca bastante aberta, como se acabasse de ver a coisa mais nojenta do mundo. Não era possível que algo tai absurdo estivesse saindo da boca de uma pessoa em sã consciência. Parecia a coisa mais inacreditável do mundo, era a coisa mais inacreditável que já tinha ouvido na vida! Mais inacreditável que quando sua mãe disse que iam viajar pelo país com hippies! Mais que quando sua mãe disse que seu pai havia morrido, e que não voltaria mais.
Mas pelo visto, aquele dia era dia de quebrar recordes. Imediatamente, o discurso de Tio Mike foi seguido por uma intensa onda de urros e brados.
-ESTAMOS!!!
II – O Diálogo da Colher
Horn abocanhou seu pedaço de pão e o mastigou distraidamente, fitando seu prato transbordante de uma sopa amarelada. A mesma sopa amarelada que havia tido de jantar no dia anterior e que, com certeza, ainda teria o mesmo gosto de detergente. Na superfície plana do caldo, podia-se ver o reflexo da lua cheia que pairava sobre o grupo de hippies, expectante com o que estava prestes a começar.
Eles haviam caminhado por mais umas quantas horas até chegarem numa cerca de arame farpado que rodeava num raio de alguns quilômetros ao que aparentava ser a tal base secreta do governo. Para uma base secreta, pensou Horn, parecia bem abandonada. Afinal, não passava de um galpão não muito grande no meio de um terreno completamente baldio, ocupado apenas por um par de velhos jipes militares e um caminhão. Nem sinal de qualquer guarda.
Tio Mike explicou o plano. Explicou que assim que atravessássemos aquela cerca de arame farpado, descobririam nossa presença e que alguns soldados nos atacariam.
-Eles são poucos – Disse ele – Mas estão bem armados. Vocês terão que distraí-los enquanto um pequeno grupo liderado por mim invadirá a base e executará o plano de sabotagem. – Parecia um agente da CIA falando. Isso deu um gelo na espinha de Horn. – Mas antes, vamos descansar um pouco, e jantar! Quem faz qualquer cosia de estômago vazio, afinal?
E lá estava Horn, com as orelhas baixas, o olhar perdido, com o monstro da expectativa embrulhando seu estômago. Durante a explicação de tio Mike, não deixou de olhar para os lados, em busca de alguém que dissesse para aquele velho o quão sem pé nem cabeça aquele plano era. Ou que pelo menos explicasse melhor que demônios era aquele plano de sabotagem. Mas não, como sempre, todos mantinham aquele sorriso e olhares de aprovação. Mais que um grupo hippie, parecia um pequeno exército sob o comando de seu general.
De repente, o prateado da lua refletido em sua sopa, antes esbranquiçado e surreal como todos os reflexos, se tornou um prateado brilhante e intenso, escuro, mais parecido a um cinza. E se movia. SIM! Se movia, mergulhava em sua sopa lentamente, fazendo a superfície de seu prato ondear. Mas aquilo não era a lua… Não podia ser! Levantou sua mirada perdida uns centímetros e se deparou com o rosto de Ió, a poucos centímetros do seu, concentrada em roubar sua sopa com sua própria colher.
-Mas quê demônios…?! – Horn arregalou os olhos e jogou seu prato para cima do susto. Uma bela quantidade de sopa morna caiu encima dele.
-Se é pra jogar fora, dá pra mim, poxa! – Protestou Ió, de cara amarrada. Horn se limitou a murmurar algum insulto. – Ah, não fica assim. Você parecia tão distraído… Resolvi te ajudar a terminar tua sopa. – Colocou sua colher na boca e ficou assistindo como Horn torcia sua roupa encharcada de sopa. – No que estava pensando?
-Em nada, em nada. Só em como demônios você consegue ficar tão tranqüila. Você e todo o mundo. Será que não perceberam que estamos indo numa missão suicida? Que daqui a menos de uma hora estaremos mortos PARA NADA?
-Você sabe que não é para nada, seu bobo. O tio Mike já explicou o motivo. – Disse ela, deliciando-se com sua colher. – Além do quê, a gente sai dessa.
-Haha, claro, claro! – Dizia Horn, deixando todo seu desespero crescente explodir em sua voz, cada vez mais alta. – E quem me garante isso? Você, Ió? Vocês não passam de um bando de malucos! Malucos alucinados com essa maldita maconha. Como vocês querem que eu confie em vocês?
-Você não precisa confiar, oras. Nunca precisou. – Ela soltou uma baforada na concha da colher e a depositou na ponta do focinho. A colher grudou de uma forma quase mágica e ficou balanceando-se em seu focinho tal qual um pêndulo.
-Hã?! O que você quer…?
-Você nunca precisou confiar em nós. Mesmo não confiando, continuou nos acompanhando, participando de nossas rodas, nossas conversas. Mesmo fazendo essa careta que sempre faz quando quer fingir que não está gostando de algo. – A levantou o indicador para o rosto de Horn, sem tirar os olhos da ponta de seu focinho, concentrando-se para fazer a colher balancear-se ao máximo sem cair. – Você vai fazer o mesmo agora, né?
-Como se eu tivesse escolha… Minha mãe e meus irmãos ainda estão aqui nesta maluquice! Quem vai protegê-los? Vocês? Nah, acho que não. Se não sou eu, ninguém mais poderá.
Ió deixou de olhar sua colher. Ao invés disso, dedicou uma mirada sem expressão à Horn. Levantou-se e, tirando sua colher do focinho, bateu com ela na cabeça do Coyote.
-Quer parar com esse mimimi? Você só não quer aceitar a verdade. Você nasceu pra isso tudo. – e ela saiu caminhando.
-Ai! Ei, espera aí! – Horn levantou-se também, esfregando seu cocuruto. Quando alcançou Ió, segurou-a pelo braço – O que você quer dizer com isso? Nasci pra quê?
-Para o mundo do Rock n’ Roll, querido. – E, dedicando-lhe um sorriso do mais angelical, bateu na cabeça do coiote novamente com a colher.
Horn esteve prestes a protestar, mas a voz de Tio Mike chamando a todos o impediu. Todos se reuniam para fazer a típica rodinha em torno do chefe hippie-supremo. Ió escapuliu-se de seu aperto e foi se reunir com o resto do grupo. Resmungando, Horn a seguiu. Tio Mike estava prestes a começar a falar quando chegaram. Ao seu lado havia outras três pessoas, entre as quais estava sua mãe. Ela tinha bastante amizade com tio Mike, não era tão estranho, mas ele ficou com um mau pressentimento sobre aquilo.
-Pois é, pessoal. Chegou a hora. Espero que tenham comido bem, fumado alguma coisa e descansado. Eu e estes três aqui do meu lado vamos nos infiltrar lá dentro enquanto vocês fazem a distração. Estaremos levando tudo o que precisamos nestas mochilas aqui. – Disse, dando um discreto chute em sua mochila, jogada no chão. Cada um tinha a sua. – Se os planos que temos de lá dentro são certos, não vamos demorar mais de quinze minutos pra sair de lá. Se demorarmos mais de quinze minutos, podem parar com a distração e dar no pé. Alguém deve lembrar de onde deixamos a perua. Eu não lembro bem, mas deve ter sido pra lá – disse, indicando a direção contrária pela qual tinham chego lá. – Enfim. Agora o que vocês estavam esperando, crianças. – E se agachou perto de um caixote enorme, que eles haviam carregado a viagem inteira. Horn sempre se perguntara o que diabos tinha guardado lá. Pegou um pé de cabra e, coma ajuda dos outros dois caras que compunham o grupo de tio Mike e sua mãe, abriram a tampa. – Tcharam! Isso deve ajudar pra segurar os militares por uns minutos, não acham?
O caixote de madeira era recheado de uma quantidade absurda de armas. Armas de todo tipo. Horn reconheceu umas quantas de uma revista que lera em seus dias de glória. Como uma M-14 que liderava o topo, ao lado de uma handgun prateada. Pacotes de munição se encontravam espalhados em volta de canos e gatilhos. Horn deu um passo pra trás enquanto que seus companheiros hippies caíram encima do caixote, alucinados, querendo garantir sua arma.
-Isso não pode ser verdade… Onde demônios eu me meti? – Murmurou para si mesmo, antes de unir-se à batalha para conseguir uma boa arma.
E ver se conseguia sobreviver àquela noite.